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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Vinte e nove, terceiro bê

Lembro a luz espalhada pelo teu corpo, fragmentada em salpicos de cor pela passagem da luz do sol no tecido colorido que nos protegia das indiscrições.
Lembro as nossas ilusões de um amor feliz e sem final, transpirados sob o lençol, clandestinos naquele quarto em vez da sala de aulas onde deveríamos estar a essa hora.
Lembro ainda que me lembrei pela vida fora da tua inesperada partida para um ponto não muito distante mas que para nós se revelou longe demais.

O silêncio que aos poucos se instalou onde antes fervilhavam os sons, apenas o matraquear de um teclado monocórdico nos tons, até ao dia em que mesmo as palavras escritas foram deixando de surgir no monitor, acabaria por emudecer aquele amor tagarela (tão intenso que parecia na sua dimensão carnal).

Era disso que se tratava afinal. E só me lembrei desse pormenor porque reparei que não mudaram as cortinas na janela por onde me fazias o sinal a sorrir e assim me davas luz verde para subir.

O resto já esqueci...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Rua do quartel

Passo ao lado e até finjo nem ver, a triste figura dos que julgam poder reclamar para si o estatuto de galos únicos na capoeira. Os que desertam de batalhas que nem chegam a começar, pois não se justificam, e regressam depois de convictos da cessação das hostilidades, fardados a rigor como paladinos do amor mais estéril, galarós.

Palermas que se sentem tão sós na sua visão reducionista das pessoas que entendem como troféus e ainda por cima os estimulam na sua demanda inglória por um lugar em qualquer história que seja digna de contar depois.

Passo ao lado e sigo o meu caminho programado, com pequenos acertos na rota. Os necessários para me afastar de quem me inspira misericórdia, afogados numa mixórdia de complexos de inferioridade com sede de projecção.

Conheço-os de ginjeira, vizinhos, cada um com os seus caminhos tortuosos a percorrer.

Faço de conta que nem estou a ver, viro as costas pelo doce prazer de assistir ao seu regresso ao centro da praça, em busca do seu sol privado, guardado esse bocado para os que na realidade vivem das sobras que lhes dão mas alardeiam na ficção os seus patéticos galões de hipotéticos conquistadores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Ovalunda do aviário (*)

Os passos titubeantes de um bebé amparado pelas pernas e pelas asas protectoras de uma mãe. Os passos saltitantes de uma criança também, despreocupada a percorrer a calçada enquanto oferece o seu sorriso ao sol.
Os passos medidos de adolescente que considera importante o estilo e o ritmo imposto ao caminhar. Passos acelerados quando se aprende o que implica crescer, o horário a cumprir e uma vida atarefada, sempre tão complicada pelo tempo que se esgota em questões insignificantes, de pormenor.

O lento passear de ancião desamparado pela vida que nos coloca de lado para abrir caminho a quem corre sem parar.

A ausência pouco notada no quotidiano desta calçada de todos quantos já esgotaram os passos disponíveis. Os vultos substituíveis no ajuntamento em hora de ponta, passos largos a caminho de outra calçada qualquer.

E eu sigo os contornos de uma mulher que passa, reluzente, pelo meio da praça, enquanto conto mentalmente os passos necessários para o ponto de intersecção.

O início de uma relação inesperada ou apenas mais um tropeção na passada, pouco importa na altura em que a pose observadora se rende à urgência de caminhar quem não perca pela demora.

A vida que estava a acontecer ainda agora.


(*) Ovalunda: Definição e Direitos de autor(a) AQUI.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Rua da ponte

A ponte foi temporariamente cortada, talvez para obras nessa importante via de comunicação.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Beco dos esquecidos

Espalhado pelo chão, coberto por cartão. Vadio, vagabundo, na ideia negligente dos que te vêem como um objecto representativo do fracasso, da perdição. Sem abrigo, para os poucos que interpretam essa mancha multicolor de andrajos de que se faz a tua presença como uma pessoa e não o que dela resta e a ninguém servirá seja para o que for.
Desististe do amor no meio de todas as coisas que já não tens nem reclamas, mesmo nos impropérios que exclamas encharcado numa zurrapa que te enlouquece apenas um pouco mais.

Espalhas-te pelo chão e cobres de cartão o frio, desaparecidas as vergonhas ou qualquer outro vestígio do orgulho de que entendeste abdicar perante ti próprio e aos outros nem ocorre poderes ambicionar.

Espalhado no alcatrão, abandonado como um cão no teu interior. A sós com a memória que te agride, entretido pela sobrevivência nos intervalos do tempo que dedicas à respectiva obliteração.